Roberto Silva
Três carcereiros da Cadeia Pública de Sarandi estão contaminados com tuberculose. Horas depois de terem o diagnóstico confirmado, os servidores públicos se reuniram com o delegado José Maurício de Lima Filho e mostraram disposição de ingressar com ações de indenizações contra o Governo do Estado.
"A ação é líquida e certa, até mesmo para os presos. Ou o estado tem competência para cuidar das delegacias ou declara que não tem", desabafou, ontem, o advogado Israel Batista de Moura, que classificou a Cadeia de Sarandi como a pior do mundo. "Fere toda a ética e a moral. É uma vergonha para a sociedade paranaense".
Rafael Silva
Nem o uso de máscaras e luvas conseguiu evitar a transmissão da doença para os servidores do local
Em entrevista a O Diário, os servidores contaminados declaram que além de falta de medicamentos, não receberam orientações sobre a evolução da doença. Eles afirmaram terem ficado surpresos com a informação de que não serão afastados do trabalho. "É uma decisão curiosa, uma vez que os detentos contaminados foram encaminhados para tratamento", observou um dos carcereiros, que pediu para não ser identificado.
Outro carcereiro contou ter havido divergências entre as informações repassadas pelo médico infectologista responsável pelos exames e a 15ª Regional de Saúde. "O médico disse que novos exames só deverão ser feitos dentro de um ano. Já a Regional de Saúde explicou que precisamos fazer novos exames dentro de três meses. Em quem devemos acreditar? ", questionou.
Os primeiros casos de tuberculose na Cadeia de Sarandi surgiram no fim de 2010, quando seis detentos passaram a manifestar os sintomas da doença. Após a remoção dos doentes, o local passou por um processo de desinfecção total. No entanto, no segundo semestre do ano passado, um novo foco surgiu e outro grupo de detentos foi contaminado. Diante da disseminação da doença, a Justiça determinou, há cerca de três semanas, a interdição parcial da cadeia.
Preso há sete meses, Wagner Francisco da Costa, 38 anos, conhecido como "Milgraus", imputa a disseminação da doença à superlotação. "Precisamos nos revezar para dormir e até sentar. Não temos banho de sol, não há corrente de ar, a água é liberada por meio de pedaços de cano, a fiação está exposta, o piso está com infiltrações e, o pior, estamos há três semanas sem receber visitas. A situação é tensa, tem muito preso nervoso e a qualquer momento pode ocorrer uma rebelião", alertou.
189
é o total de presos na cadeia,
que tem capacidade para
abrigar sessenta detentos
O cenário narrado por Costa é semelhante ao do levantado por um grupo de advogados de Maringá, Marialva e Sarandi - entre eles o atual secretário estadual de Relações com a Comunidade, Wilson Quinteiro - a ingressar com pedido de interdição da Cadeia de Sarandi no ano de 2004.
No pedido, os juristas alegaram superlotação, presos dormindo em piso úmido, número reduzido de funcionários especializados, insegurança, insalubridade, surtos de doenças infectocontagiosas, alimentação inadequada, risco de curto circuito, falta de ventilação, esgotos entupidos, odor insuportável e falta de chuveiros. O pedido foi acatado pela Vara de Execuções Penais de Maringá, mas não foi cumprido.