Publicado em 26/01/2014 02:00  -  Atualizado em 26/01/2014 02:00

De 100 trabalhadores, 40 ficam só um ano no emprego

Fábio Linjardi

O aumento da oferta de trabalho em Maringá gerou um novo tipo de funcionário: aquele que não teme perder o emprego e fica pouco tempo em uma mesma empresa. Segundo a Relação Anual de Informações Sociais (Rais), do governo federal, um em cada quatro empregados na cidade não se mantém seis meses na mesma empresa. A maioria não chega a dois anos no emprego – pela média municipal, 57% são demitidos ou pedem para sair nos primeiros 24 meses.

“Essa rotatividade não é boa para as empresas, porque leva tempo para a qualificação do funcionário. Quando ele está pegando o ritmo, deixa o trabalho”, diz o economista do Conselho de Desenvolvimento Econômico de Maringá (Codem), João Ricardo Tonin. Ele compilou os dados da Rais e apresentou ao conselho superior da entidade. A constatação deve levar a estudos sobre como conter a rotatividade no mercado local. “Quanto mais a economia cresce, mais favorece essa rotatividade, porque há a segurança do trabalhador em deixar um emprego e partir para outro.”

A alta rotatividade não é um fenômeno tipicamente maringaense. Taxas semelhantes, com variação de até dois pontos percentuais para mais ou para menos, são registradas em Londrina, Ponta Grossa, Cascavel, nas paulistas São José do Rio Preto e Bauru ou ainda nas mineiras Uberlândia e Montes Claros, mostra a comparação feira pelo economista do Codem.

Mesmo que haja exemplos semelhantes no País, o tempo de permanência no emprego em Maringá está abaixo da média. Enquanto no município 24% dos empregados ficam apenas até seis meses na mesma ocupação, a média estadual cai para 21%, e a nacional é de 12%. Em países desenvolvidos do outro lado do Atlântico, a rotatividade é ainda menor: na Itália, apenas 6% dos trabalhadores deixam a empresa em até seis meses. Na Suíça, França, Holanda e Alemanha, essa faixa de permanência na empresa também não atinge mais que 9% dos empregados, segundo dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Há outros dois pontos que, segundo o economista do Codem, levam à menor despreocupação em se fixar em uma empresa. O primeiro é o seguro-desemprego, benefício federal para quem trabalhou ao menos seis meses com carteira assinada – e que é concedido por um período de três a cinco meses.

O segundo ponto é a força de trabalho ser formada, na maioria, por jovens. Segundo dados da Rais, um em cada cinco trabalhadores com carteira assinada em Maringá tem até 24 anos. A proporção sobe para um em cada três quando se estende a faixa para empregados de até 29 anos. “Se você pega uma pessoa com mais idade, é menor a preocupação dela em mudar de serviço, porque já tem família para cuidar.”

Para o economista e professor doutor do Departamento de Economia da Universidade Estadual de Maringá (UEM) Neio Lúcio Peres Gualda, a alta rotatividade de trabalhadores na cidade está mais ligada à oferta de empregos do que aos benefícios sociais, como o seguro-desemprego. “Os benefícios sociais não explicam quase nada isso. A pessoa não abandona o emprego para viver de bolsa. As pessoas querem um emprego, a estabilidade financeira e emocional depende de um bom contrato de trabalho. O que está acontecendo é a melhoria no ritmo econômico”, diz.

Gualda lembra que a evolução econômica não leva, isoladamente, à agitação no mercado de trabalho. Os dados de economias mais desenvolvidas mostram o contrário de Maringá, com trabalhadores em empregos mais duradouros, e a diferença nos números se dá por conta da qualificação profissional – o que significa mais tempo de estudo. “A realidade aqui é outra. O trabalhador europeu é, em média, mais qualificado. Quanto maior a qualificação, maior a renda e o tempo de permanência em uma mesma empresa.”

Valdenei Nogueira, assistente administrativo na Agência do Trabalhador de Maringá, diz que são vários os casos de pessoas procurando melhores salários, mas sem a qualificação exigida por quem paga mais. “Outro dia um cidadão até ficou bravo comigo, mas eu falei: você tem ensino fundamental incompleto e quer salário de quem está saindo da faculdade!”, diz. A situação ilustrada por ele não é de um personagem raro: os números da Rais mostram que um em cada três trabalhadores maringaenses não chegou a completar o ensino médio.

“Tem oferta de emprego, o trabalhador está muito exigente, mas sem dar a contrapartida, como formação escolar ou em cursos na função que ele pretende exercer.” Desde o início do ano, a agência vem oferecendo uma média semanal de 800 a 900 vagas.

 

Pedindo para sair

Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho e Emprego, mostram que em 2003, do total de desligamentos nas empresas de Maringá, 21% foram de empregados que pediram demissão. Os outros 79% foram em decorrência de demissões sem justa causa, aposentadorias e mortes.

Já no ano passado, 40% dos desligamentos na cidade foram a pedido dos próprios funcionários – foram 36.132 pedidos de demissão no ano. A menor taxa de saída por iniciativa do funcionário foi na construção civil - 27%. Já nos setores de indústria e serviços, o percentual de desligamentos espontâneos foi de 42%. Na sequência, entre os que mais pedem para sair, estão os funcionários do comércio (40%) e do setor agropecuário (39%).

Presidente da unidade regional em Maringá da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH), Marcelo Silva diz que as empresas precisam investir mais se pensam em segurar os funcionários. “Esses números de rotatividade, acredito, representam a realidade de 70% das empresas. Os outros 30% se prepararam para manter mais os trabalhadores”, avalia.

Algumas das estratégias para não perder os funcionários, segundo Silva, são pagar mais que a média, oferecer benefícios e treinamentos e deixar claro que há perspectiva de crescimento. “Hoje os empregados pedem demissão porque tem vaga. As empresas que se mostrarem diferenciadas, que saírem acima da média, vão conseguir um nível de retenção muito maior”, diz Silva.

“Falta um pouco mostrar por qual motivo o trabalhador tem que ficar. Isso se faz no dia a dia, mostrar ao funcionário que ele é importante, que ele não um número lá dentro”, diz.

 

 

MOTIVAÇÃO
Desligamentos de funcionários em Maringá

2003
Demissões pelo empregador
78,7%

Pedidos de demissão
21,2%

Outros (fim de contrato, aposentadoria, transferência ou morte)
0,1%

2013
Demissões pelo empregador
45,7%

Pedidos de demissão
39,7%

Outros (fim de contrato, aposentadoria, transferência ou morte)*
14,6%

*Desligamentos por término de contrato, inexistentes em 2003, passaram a representar 13,9% em 2013.

Fonte: Caged/MTE

 

161,7
MILHÕES DE TRABALHADORES vão trocar de emprego em todo o mundo em 2014, segundo a consultoria Hay Group

 

POR QUÊ?
Um estudo feito pela consultoria Hay Group no ano passado mostra quais são os cinco principais motivos que levam um funcionário a querer mudar de emprego. Foram ouvidos 5 milhões de colaboradores, de 350 empresas de todo o mundo. Confira quais são estes motivos:
Falta de confiança
Falta de perspectiva
Trocas injustas
Falta de chances de sucesso
Autoridade e influência

 

SAIBA MAIS
Tempo de permanência no emprego em Maringá

Até 2 meses 12,5%

3 a 5 meses 10,7%

6 a 11 meses 16,6%

12 a 23 meses 18%

24 a 35 meses 10,7%

36 a 59 meses 11,3%

60 a 119 meses 10,3%

120 meses ou mais 9,9%

Fonte: RAIS 2012

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